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Era uma vez Angola(2002), surge por força de muitas forças e por ordem do aparente caos que organiza as nossas vidas.

Se alguém me dissesse há dois anos que eu iria publicar algo sobre a minha terra de nascimento, acharia pouco provável e nada viável.

Miúdo, voei de Luanda para Lisboa numa ponte aérea que transportou centenas de milhar de angolanos. Trouxe as memórias possíveis de quem nem tempo teve para ser adolescente no local onde aprendeu a andar.

Cresci rodeado de afectos à terra que ficou do outro lado da minha vida, do lado da memória, alimento da saudade, criadora de lendas e histórias de encantar.

Angola sempre foi tema recorrente de acaloradas conversas e serões desenrolados ao puxar da saudade. Na família razões não faltavam para mais um "…lembras-te daquela vez..".

Quando a minha avó chegou ao Huambo contavam-se pelos dedos as mulheres brancas ali residentes; o meu avô acompanhou o desenvolvimento de lugares que depois deram em cidades; sou filho de um cabeça-de-pungo (Moçâmedes) e uma bailunda (Nova Lisboa). Os meus pais nasceram e cresceram a ouvir falar de um terra distante chamada Portugal. Eu sou chicoronho (Sá-da-Bandeira) e a minha irmã cabeça-de-pungo . A minha família fez-se de Angola…

(...)

A história da nossa terra passa por estas fotos, tal como tantas outras perdidas em outros tantos sótãos e arquivos públicos mais ou menos inacessíveis.


 

 

 

 

 

 

Recordar Angola, fotos e gentes de Cabinda ao Cunene(2004)

É um álbum de um país que vou redescobrindo pelo saber da história. Um encontro com pessoas que aprenderam a amar e a viver aquela terra.
Como o meu pai, o verdadeiro responsável por este livro. O guardador de sonhos e memórias. Ele que nunca desistiu do projecto de partilhar as imagens da sua terra. A ele devo este álbum fotográfico de um país chamado Angola.
Nas páginas que se seguem, guardando os seus segredos, Luanda revela-se quando menos se espera. Moura Machado foi um dos homens que mais fotografou a capital, os seus recantos e as suas gentes. Por um acaso, ou talvez não, o meu caminho cruzou-se com o do seu filho, fiel depositário de preciosas memórias visuais.
A Sul, encontros inesperados levaram-me a um homem que é uma referência histórica no desenvolvimento das terras da Huíla, o famoso "Dr. Farrica". Uma história de vida que me deixou suspenso pelos mais de 90 anos de amor eterno à sua terra. Uma lição de vida e resistência às adversidades.
Nos planaltos do Lubango recupero ainda o testemunho de um dos homens do chamado Reino do Maconge, ainda vivo e cheio de memórias do tempo em que o "café passou de 1$50 para 15 escudos".
Nascida do engenho humano, Moçâmedes (Namibe) mostra novos tesouros das suas gentes e lugares em instantâneos do avô Salvador.
Os ventos da História sopram nomes de figuras como a "regedora" de Porto Alexandre (Tombua) ou do funante Fraga, que enfrentou Reis, tropas e emboscadas. Memórias raras de sobrevivência e instinto.
Angola e Jinga, dois caminhos que se confundem. O país e a Rainha que desafiou a corte portuguesa, que foi recebida com pompa e circunstância no palácio de Luanda. Outra das referências deste livro.
Das vilas e lugares recupero os retratos quase perdidos de tantos locais que, de pequenos, perderam a sua memória visual. São dezenas de fotos de povoados e localidades que ajudaram à grandeza de Angola. De Porto Aboim a Teixeira de Sousa (Luau), de Cabinda a Pereira D'Eça (Ongiva).
Espero com este livro conseguir transmitir o prazer e alegria que se experimenta ao desfolhar um álbum de família.
Nestas páginas, assumo Angola e Portugal como os pais de uma enorme prole de angolanos a que tenho o privilégio de pertencer.


 

 

 

 

 

Recordar Angola, fotos e gentes de Cabinda ao Cunene,Vol 2 (2006)

Ao longo dos últimos dois anos, fiz várias viagens, inesquecíveis, ao interior das mais recônditas memórias de muitos angolanos que, aceitando-me na sua intimidade, partilharam aquilo que de mais valioso possuíam, a sua história, os seus caminhos, os seus pretéritos, mais que perfeitos na doçura dos detalhes.
Sinto-me um privilegiado que, guiado pelas vidas de tantos homens e mulheres que ajudaram a formar um país chamado Angola, descobriu novas dimensões, humanas e históricas, da terra onde nasceu.
Uma Nação não é feita por governos ou decretos. É, isso sim, construída por pessoas, tão anónimas quanto fundamentais.
No Huambo, sinto a dedicação do Chico Bamba; em Silva Porto, a força do Ladeira Santos; no Lobito, a persistência do Quitos; no Lubango, a entrega dos Simões de Abreu; em Luanda, a coragem do Alexandrino da Silva e a luta dos Galo Alves; em Carmona, a desenvoltura da Maria da Horta; em Porto Alexandre, a audácia dos Peleiras e Trocatos.
Parte da vida deles, fez parte da nossa. A lembrança que deles guardamos é uma ínfima fracção da imensa uma herança cultural e oral, depositada na memória de centenas de milhar de angolanos em todo o mundo.
Como simples mensageiro destas fascinantes vidas tento, ao longo destas páginas, ajudar a perpetuar a sua recordação. Não como heróis, mas antes pessoas que acreditaram nos seus sonhos e tiveram a coragem de por eles viver. Seguramente com a mesma persistência e dedicação de milhões de outros angolanos que, diariamente, constroem o seu futuro. Estas histórias correm, no entanto, o risco de se esvaírem no tempo e no esquecimento. Elas fazem parte do património de uma Nação que, embora jovem, não pode perder um dos seus mais importantes direitos: ao seu passado.
Este segundo volume de "Recordar Angola", é por isso um livro mais personalizado.
Tal como primeiro, gostaria que fosse olhado com o mesmo carinho de quem folheia o álbum de família, percorrendo-o com entusiasmo e surpresa: "Ah, olha, lembras-te deste? Eh, pá, este aqui não é o…que morava ali…? Aka! ao tempo que não sei nada dele…" .
Nas páginas que se seguem, quantos de vós não vão encontrar os amigos e até mesmo alguns dos familiares? Quantas destas paisagens e lugares não vos despertam cheiros e emoções, apenas adormecidas? Quantas destas histórias não se assemelham aos vossos próprios percursos naquelas terras do Huambo, Cunene, Lubango, Namibe, Bié, Cuanza ou Lundas?

 

 

 

 

 

 

 

 

Cabinda

 

Zaire

 

Uíge

 

Bengo

 

Cuanza Norte

 

Luanda

 

Malange

 

Lunda Norte

 

Cuanza Sul

 

Moxico

 

Huambo

 

Benguela

 

Namibe

 

Huila

 

Cuando-Cubango

 

Cunene

 

 

 

 

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