Raul Indipwo
Era uma vez, no tempo do “caprandanda” eu ia fazer cinco anos....
Na cidade de Moçâmedes, Namibe, perplexo apertando com mais força a mão protectora do meu pai, que me tinha prometido uma surpresa, para me compensar da tristeza de ter deixado a minha árvore querida, minha amiga e sábia confidente, sozinha, no quintalão da nossa casa da Chibia, se calhar aquela hora pensando em mim...
E estávamos ali, o meu pai, a mana Olga, mana Odete, mano Rui e mano Zéca.
Eu nunca tinha visto o mar e, mesmo fazendo um grande esforço, não conseguia “ver” todas as descrições que dele me tinham feito, e nos meus cinco anos incompletos não conseguia meter na minha cabeça uma coisa assim tão diferente, tão grande, maior que a anhára que se estendia para lá dos campos de trigo e do rio Tximpopunhime, muito maior que o Cunene....maior que a minha imaginação.
Primeiro pareceu-me uma nuvem de gafanhotos como a que uma vez passou na Chibia, linda, com as asas em tons de violeta, verde e azul, brilhando no céu, foi chegando, chegando, até começar a tapar o Sol e a fazer rerrrrr-rerrrrr-rerrrr-rerrrr-rerrrr..., um barulho pior que uma chuvada daquelas. A minha avó, as minhas tias e toda a gente a gritar e a agitar panos amarrados em varas, parecia uma festa com bandeiras mas não era, porque as pessoas estavam a chorar e eu pensei que era como a guerra que a minha mãe nos tinha contado uma vez mas também não era porque não havia tiros.
Foi muito triste, acabou tudo, o trigo, as hortas, as árvores, o jardim.... mas eu enchi uma caixa com alguns gafanhotos para serem os meus bois de brincadeira, oh!
Então o Mar era aquilo tudo!!! E o barulho da água a mexer pra lá e pra cá e o meu pai ensinou que se chamavam “ondas”.
É verdade que primeiro tive medo mas, depois, senti que ele era meu amigo e fizemos mesmo amizade quando o meu pai me descalçou e me fez molhar os pés naquela água. Depois disse para eu provar e a água e era muito salgada mas tinha peixes mesmo assim.
E os barcos? àka, àka...- Isto não é nada, vais ver amanhã o Vapor que nos vai levar para Luanda – dizia o meu pai ao ver o meu assombro- É o “Mouzinho”.
E era mesmo grande, com camarotes e salas. A viagem no meio do mar, sem se ver nem uma terrinha que fosse ! Ainda guardo os barulhos do barco, as imagens, os peixes voadores e golfinhos, o cheiro do mar. O senhor Comandante com uma farda branca como a do meu pai, só que nos ombros era diferente.
Eu fazia muitas perguntas, até à exaustão e, a cada resposta, eu acrescentava a minha própria fantasia. Faltava-me a minha confidente para eu contar mas ali, estávamos tão longe, num mundo novo, tantos carros, machimbombos, tudo.
Luanda era grande e tinha uma ilha onde nós íamos de comboio bebé.
Depois eu fiquei muito doente e fiz anos no hospital. Cinco anos. Deram-me prendas e
a tia Palmira, que morava perto do hospital fez um bolo.
Fomos de comboio para Malange, um dia inteirinho a viajar. Depois, de carro para Novagaia, Songo, onde o meu pai ficou colocado no Hospital.
Todas as manhãs, bem cedinho, dávamos um passeio com o nosso pai que nos ensinava o nome das plantinhas medicinais, raízes, argilas. Eu conhecia muitos insectos, todos os pássaros e muitos bichos-do-mato Com uma paciência e carinho mostrava-nos as frutas silvestres que se podiam comer.
Tive a minha primeira professora, uma senhora ainda muito jovem, vinda de Portugal, acompanhada de uma criada branca e usava luvas de renda. Parece que não gostou de nós e foi-se embora. Depois chegou a Dona Alice.
A Dona Alice mandou o contínuo abrir a porta da Escola, um velho barracão de “pau a pique”. Ficou por detrás da secretária e, enquanto íamos entrando, ela dizia: -Aqui os da quarta, ali os da terceira, depois os da segunda e os da primeira mesmo aqui à mão de semear!...
Depois de todos sentados, o sermão:
- Aqui na Escola, eu sou a vossa mãe. Quem se portar bem come “kifufutila” e quem se portar mal tem aqui a santa luzia, menina dos cinco olhos.
A Dona Alice era mestiça, natural de São Tomé, educada na Missão do Késsua em
Malange, e depois formada na cidade do Porto. Dizia “óito” e “dezôito”
Ensinou-me coisas muito importantes, entre elas, falar “quimbundo”. Não admitia erros pela segunda vez e, se necessário não se ensaiava nada para dar uma sova ao mais pintado. - Nunca se separam os “mos” nem se juntam os “nos”-.
Muito do que sou devo a ela. Fazia-me cantar nas aulas de canto coral, elogiava os meus desenhos, obrigava-me a decorar poemas enormes e até foi ela quem nos preparou para a primeira Comunhão. (...) excerto
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