David Borges
Era cedo, ainda, mas a manhã crescia escaldante. O dia iria aquecer muito, muito mais, depois.
Eu acordara com barulhos misturados: gente em plena actividade, macacos guinchando pendurados nos ramos magros de árvores escalavradas, e Minguito, a cantar o “samba da minha vida”...
Olhei e vi e senti tudo. Vi os homens activos, os macacos saltitantes, e um rádio, que alguém pendurara no ramo baixo de uma árvore.
Sobretudo lembro-me do Minguito a cantar na paisagem ardente do Cunene...
Sentei-me, ainda estremunhado, aturdido já pelo calor, e reparei que a minha silhueta estava perfeitamente desenhada, pelo suor, no colchão de borracha em que dormira, quase nu.
Sacudi as botas, automaticamente, antes de as calçar, cumprindo o ritual de um conselho antigo. Não saiu do interior delas qualquer lacrau. Nenhum se abrigara no interior das minhas botas militares...
Olhei o mundo que me rodeava e, mais uma vez, reparei na paisagem desolada mas poderosa do meu Cunene natal. Vi as árvores ressequidas pelo sol, o capim ralo, a imensidão de terra que se estendia, sem qualquer obstáculo, até um horizonte em que a terra tocava, sempre plana, um céu azulíssimo.
Os homens que me acompanhavam já estavam, e talvez há bastante tempo, em actividade.
Numa pequena fogueira aquecia café preto e o aroma espalhava-se. Lembrei-me, nesse momento, do Sebastião Coelho e do seu carismático programa radiofónico “Café da Noite”: ”puro e aromático...Café de Angola”.
Luanda estava longe, quase no outro extremo de Angola e eu estava bem às portas da Namíbia, algures entre Onkokua e Otchindjau...
Desviei o olhar para a panela velhíssima, em que estaria já pronto o “matete” da manhã, essa espécie de pirão açucarado, delicioso, que eu comera, pela primeira vez, num “eumbo” perdido na imensidão cuanhama, sentado uma pedra enegrecida pelo fumo da fogueira, com o mugir dos bois chegando-me aos ouvidos de um “sambo” próximo...
Enchi o peito de ar e apesar do calor, senti-me mais um elemento da bela e rude paisagem onde nascera, vinte anos antes.
Saíra de Xangongo na véspera, para uma patrulha apeada. Eu, branco, e mais doze militares, todos negros, nenhum deles originário da zona. Logo à saída do quartel, e contornando a ideia de uma patrulha que teria de ser feita a pé, aproveitáramos uma boleia e cumpríramos meio mapa viajando na parte de trás de um “Land Rover” que nos surpreendera em plena caminhada...
Fazíamos os treze parte de um pelotão angolano integrado numa companhia portuguesa, dividida entre Ondjiva (Pereira d’Eça) e Xangongo (Roçadas) e na última fase da época colonial já era assim. Chegava a Angola uma companhia portuguesa com um pelotão a menos e esse espaço era ocupado por um pelotão de incorporação angolana.
Era especialmente difícil a comunicação no interior dessa companhia portuguesa, formada por açorianos, com um pelotão angolano.
O sotaque dos Açores era cerrado e, para além disso, estava em enchimento um nacionalismo angolano jovem, muito específico e que tinha uma das suas expressões na resistência a ordens não angolanas. (...) excerto
|
|